sábado, 19 de outubro de 2013

DE 19 A 25/10: A PORTA (homenagem ao centenário de Vinicius de Moraes)


A Porta
Vinicius de Moraes

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!
Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

domingo, 21 de julho de 2013

17ª SEMANA: 24 A 30/04: SAUDADE


Saudades
Florbela Espanca

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

sábado, 27 de abril de 2013

16ª SEMANA: DE 17 A 23/04: ROMANTISMO


ROMANTISMO
Cecília Meireles

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua, 
para pensar um belo pensamento 
e pousá-lo no vento! 

Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível - 
para se ver chorando, e gostar de chorar, 
e adormecer de lágrimas e luar! 

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas, 
partisse por nuvens, dormente e acordado, 
levitando apenas, pelo amor levado... 

Quem tivesse um amor, sem dúvida e sem mácula, 
sem antes nem depois: verdade e alegoria... 
Ah! quem tivesse... (Mas, quem teve? quem teria?)

domingo, 7 de abril de 2013

15ª SEMANA: DE 10 A 16/04: VIDA DE MÁRMORE


VIDA DE MÁRMORE
Murilo Mendes

A estátua muda a camisa na praça deserta.
Arcanjos violentos surgem do fundo dos minutos,
carregam tua vontade para o outro lado do mundo
Amor preguiça deserto revolução amor,
tudo passa tudo se reduz a eternidade de olhares,
tudo passa menos a memória da bem-amada.

Tudo se reduz a eternidade de contatos.
O amor passa menos a memória da bem-amada.
Meus pensamentos eternos ficaram à superfície do teu corpo.
Toda a realidade do mundo é provisória, o mundo é provisório.
Tudo se reduz a eternidade de preguiça e de olhares.
A estátua mudou de camisa e se acalma na praça deserta.

14ª SEMANA: DE 03 A 09/04: NÃO HÁ VAGAS


NÃO HÁ VAGAS
Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
   está fechado:
   "não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

segunda-feira, 1 de abril de 2013

13ª SEMANA DE 26/03 A 02/4: CHUVAS


CHUVAS
Alfredo Garcia

Com chuva grossa
não há quem possa.
- E a chuva fina?
- E chuva de menina!
- Mas, e o chuvisco?
- É menino arisco!
- E, se chove canivete?
- Te mete!

Com chuva grossa
não há quem possa.
- E quando vem a enxurrada?
- A rua fica alagada!
- E se chove de mansinho?
- É o céu fazendo carinho...
- E a chuva com trovão?
- É Deus passando um carão!

Com chuva grossa
Não há quem possa.

12ª SEMANA DE 19 A 25/03: DEDUÇÃO


DEDUÇÃO
Vladimir Maiakóvski

 Não acabarão nunca com o amor,
 Nem as rusgas,
 Nem a distância.
 Está provado,
 Pensado,
 Verificado.
 Aqui levanto solene
 Minha estrofe de mil dedos
 E faço o juramento:
 Amo
 Firme,
 Fiel
 e verdadeiramente.

segunda-feira, 25 de março de 2013

11ª SEMANA: DE 12 A 18/03: SAIA DE MOÇA

 
SAIA DE MOÇA (HIBISCO)
Rondel
 
Vento esperto a saia de moça levanta
Hibisco que dança no meu jardim
Bailarina por ti o sol se adianta
Mas tu não tens pena de mim
 
Faço-te serestas que as outras encanta
E poesias perfumadas de jasmim
Vento esperto a saia de moça levanta
Hibisco que dança no meu jardim
 
Tu te entregas a carícias tantas
Expondo o esplendor rubim
Ensaiando gestos sem fim
Não me dizes sim e me espantas
Vento esperto a saia de moça levanta!


segunda-feira, 11 de março de 2013

10ª SEMANA: DE 5 A 11/03: AS ROSAS AMO DOS JARDINS DE ADÓNIS

 
AS ROSAS AMO DOS JARDINS DE ADÓNIS
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
 
As Rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.

A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.

Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.


9ª SEMANA: DE 26/02 A 4/03: MISTÉRIO

 
Mistério
Florbela espanca

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
 Dizendo coisas que ninguém entende!
 Da tua cantilena se desprende
 Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
 Uma alada canção palpita e ascende,
 Frases que a nossa boca não aprende,
 Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
 Fazes passar o lúgubre arrepio
 Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
 Quando, inerte, na paz do cemitério,
 O meu corpo matar a fome às rosas!


8ª SEMANA: DE 18 A 25/02: CANÇÃO MÍNIMA

 
CANÇÃO MÍNIMA
Cecília Meireles
 
No Mistério do Sem-Fim
 equilibra-se um planeta.
 
E, no planeta um jardim,
 e, no jardim, um canteiro;
 no canteiro uma violeta,
 e, sobre ela, o dia inteiro.
entre o planeta e o Sem-Fim,
 a asa de uma borboleta.


7ª SEMANA: DE 12 A 18/02: JUVENÍLIA VII

JUVENÍLIA VII
Fagundes Varela
 
Ah! quando face a face te contemplo,
E me queimo na luz de teu olhar,
E no mar de tua alma afogo a minha,
E escuto-te falar;
 
Quando bebo no teu hálito mais puro
Que o bafejo inefável das esferas,
E miro os róseos lábios que aviventam
Imortais primaveras,
 
Tenho medo de ti!... Sim, tenho medo
Porque pressinto as garras da loucura,
E me arrefeço aos gelos do ateísmo,
Soberba criatura!
 
Oh! eu te adoro como a noite
Por alto mar, sem luz, sem claridade,
Entre as refegas do tufão bravio
Vingando a imensidade!
 
Como adoro as florestas primitivas,
Que aos céus levantam perenais folhagens,
Onde se embalam nos coqueiros presas
 
Como adoro os desertos e as tormentas,
O mistério do abismo e a paz dos ermos,
E a poeira de mundos que prateia
A abóbada sem termos! ...
 
Como tudo o que é vasto, eterno e belo;
Tudo o que traz de Deus o nome escrito!
Como a vida sem fim que além me espera
No seio do infinito.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

6ª SEMANA: DE 5 A 11/02: TODO CARNAVAL TEM SEU FIM


TODO CARNAVAL TEM SEU FIM
Marcelo Camelo
 
Todo dia um ninguém José acorda já deitado
Todo dia, ainda de pé, o Zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer


Mas o dia insiste em nascer pra ver deitar o novo
 
Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada
Toda bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim


E é o fim


Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar com o meu nariz !
Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco?
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado


E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul

Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar com o meu nariz !

Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar

5ª SEMANA: DE 29/01 A 04/02: SIMPATIA

 
O QUE É - SIMPATIA
(A uma menina)
Casimiro de Abreu

Simpatia - é o sentimento
 Que nasce num só momento,
 Sincero, no coração;
 São dois olhares acesos
 Bem juntos, unidos, presos
 Numa mágica atração.

Simpatia - são dois galhos
 Banhados de bons orvalhos
 Nas mangueiras do jardim;
 Bem longe às vezes nascidos,
 Mas que se juntam crescidos
 E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
 Que riem no mesmo riso,
 Que choram nos mesmos ais;
 São vozes de dois amantes,
 Duas liras semelhantes,
 Ou dois poemas iguais.

Simpatia - meu anjinho,
 É o canto do passarinho,
 É o doce aroma da flor;
 São nuvens dum céu d'Agôsto,
 É o que m'inspira teu rosto...
 - Simpatia - é - quase amor!


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

4ª SEMANA: DE 22 DE 28/01: TU TENS UM MEDO

 
TU TENS UM MEDO
Cecília Meireles

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

(Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

3ª SEMANA: DE 15 A 21/01: NAVEGAR É PRECISO

 
NAVEGAR É PRECISO
Fernando Pessoa
 
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
 
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
 
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.
 
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
 
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
 
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

2ª SEMANA: DE 08 A 14/01: AS MENINAS

 
AS MENINAS
Cecília Meireles
 
Arabela
abria a janela.
 
Carolina
erguia a cortina.
 
E Maria
olhava e sorria:
"Bom dia!"
 
Arabela
foi sempre a mais bela.
 
Carolina
a mais sábia menina.
 
E Maria
Apenas sorria:
"Bom dia!"
 
Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina
.
Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

1ª SEMANA: DE 01 A 07/01: DESEJAR

 
DESEJAR
Jorge de Lima
 
Desejar é a contínua impulsão de mudar...
- Desfazer e fazer - que jamais se termina...
Sonhar tudo, ser tudo e de novo aspirar
A primeira ilusão que se crê e imagina...
 
Carne ter outra carne a sentir e apalpar,
E ser beijo que mata e gozo que assasina...
E ao ser tudo, oh! tortura, outra vez desejar
A pureza d'outrora e os tempos de menina...
 
O desejo do tronco é ter verdura um dia,
E ao ter verdura vir de novo a ser desnudo,
E ser tronco outra vez e não ramaria...
 
Desejar oh! meu Deus, nada ser e ser tudo...
Não querer e querer... Estupenda agonia:
Mudo que quer ter voz e ao ter voz quer ser mudo!