terça-feira, 25 de dezembro de 2012

49ª SEMANA: DE 25 A 31/12: PORQUE

 
PORQUE
Carlos Drummond de Andrade
 
Amor meu, minhas penas, meu delírio,
Aonde quer que vás, irá contigo
Meu corpo, mais que um corpo, irá um'alma,
Sabendo embora ser perdido intento
 
O de cingir-te forte de tal modo
Que, desde então se misturando as partes,
Resultaria o mais perfeito andrógino
Nunca citado em lendas e cimélios
 
Amor meu, punhal meu, fera miragem
Consubstanciada em vulto feminino,
Por que não me libertas do teu jugo,
Por que não me convertes em rochedo,
 
Por que não me eliminas do sistema
Dos humanos prostrados, miseráveis,
Por que preferes doer-me como chaga
E fazer dessa chaga meu prazer?


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

48ª SEMANA: DE 18 A 25/12: CANTO DE NATAL

 
CANTO DE NATAL
Manuel Bandeira

O nosso menino
 Nasceu em Belém.
 Nasceu tão-somente
 Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
 O nosso menino.
 Mas a mãe sabia
 Que ele era divino.

Vem para sofrer
 A morte na cruz,
 O nosso menino,
 Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
 O humano destino:
 Louvemos a glória
 De Jesus menino.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

47ª SEMANA: DE 11 A 18/12: TU QUE ME DESTE O TEU CUIDADO ...

 
TU QUE ME DESTE O TEU CUIDADO...
Manuel Bandeira
 
Tu que me deste o teu carinho
E que me deste o teu cuidado,
Acolhe ao peito, como o ninho
Acolhe ao pássaro cansado,
O meu desejo incontentado.
 
Há longos anos ele arqueja
Em aflitiva escuridão.
Sê compassiva e benfazeja.
Dá-lhe o melhor que ele deseja:
Teu grave e meigo coração.
 
Sê compassiva. Se algum dia
Te vier do pobre agravo e mágoa,
Atende à sua dor sombria:
Perdoa o mal que desvaria
E traz os olhos rasos de água.
 
Não te retires ofendida.
Pensa que nesse grito vem
O mal de toda a sua vida:
Ternura inquieta e malferida
Que, antes, não dei nunca a ninguém.
 
E foi melhor nunca ter dado:
Em te pungido algum espinho,
Cinge-a ao teu peito angustiado.
E sentirás o meu carinho.
E setirás o meu cuidado.


sábado, 8 de dezembro de 2012

46ª SEMANA: DE 04 A 11/12: SONETO DO MAIOR AMOR

 
SONETO DO MAIOR AMOR
Vinícius de Moraes
 
Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.
 
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.
 
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo
 
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.