quinta-feira, 28 de junho de 2012

25ª semana: de 24/06 à 02/07: MINH'ALMA É TRISTE


MINH’ALMA É TRISTE
Casimiro de Abreu

Minh'alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato;
Nem beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem doce canto o sabiá do mato!

E como a flor que solitária pende
Sem ter carícias no voar da brisa,
Minh'alma murcha, mas ninguém entende
Que a pobrezinha só de amor precisa!

Amei outrora com amor bem santo
Os negros olhos de gentil donzela,
Mas dessa fronte de sublime encanto
Outro tirou a virginal capela.

Oh! quantas vezes a prendi nos braços!
Que o diga e fale o laranjal florido!
Se mão de ferro espedaçou dois laços
Ambos choramos mas num só gemido!

Dizem que há gozos no viver d'amores,
Só eu não sei em que o prazer consiste!
- Eu vejo o mundo na estação das flores...
Tudo sorri - mas a minh'alma é triste!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

24ª SEMANA: DE 16 À 24/06: A MESA


A MESA
João Cabral de Melo Neto

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto, ainda leve, quente

e fresco como o pão.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

23ª SEMANA: DE 08 À 16 DE JUNHO: FANATISMO


FANATISMO
Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa... ”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim! ... ”

segunda-feira, 4 de junho de 2012

22ª SEMANA: DE 01 À 08/06: A LÁGRIMA


A LÁGRIMA
Jorge de Lima

Ao desgraçado, ao réu, ao pecador, que importa!
És um alívio presto, um conforto, um alento!
Quantas vezes oh! céus, a lágrima conforta
O que diz a Saudade e o que fala o Tormento!

Do desejo que nasce, à Paixão que está morta,
A lágrima completa o universal conceito...
Atentai no meu estro: ela convence e exorta
Qual se fora um gemido, um soluço, um lamento!

Quando a voz titubeia, agonizante, louca,
E a paixão quer falar e se constrange e cala,
É a lágrima que diz o que não diz a boca...

A lágrima, meu Deus! que não tem voz nem fala,
É tão boa! parece um confidente mudo
Que, assim mesmo, sem voz e sem falar, diz tudo!