quarta-feira, 26 de setembro de 2012

37ª SEMANA: DE 26/9 A 03/10: CANTEIROS

 
 
CANTEIROS
Cecília Meireles

Quando penso em você, fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos, em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
 
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Prá correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
 
Que eu ainda sou bem moço prá tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

36ª SEMANA: DE 18 A 26/09: BILHETE

 
 
BILHETE
Mário Quintana
 
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
...Se me queres, enfim,
...tem de ser bem devagarinho,
...Amada,
...que a vida é breve,
...e o amor mais breve ainda...


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

35ª SEMANA: DE 10 A 18/09: SONETO DE AMOR

 
SONETO DE AMOR
Pablo Neruda
 
Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,
 
sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,
 
sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,
 
e desde então sou porque tu é,
e desde então é, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

34º SEMANA: DE 03 A 10/09: TRADUZIR-SE

 
TRADUZIR-SE
Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
 
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
 
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
 
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
 
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
 
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
 
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?