terça-feira, 25 de dezembro de 2012

49ª SEMANA: DE 25 A 31/12: PORQUE

 
PORQUE
Carlos Drummond de Andrade
 
Amor meu, minhas penas, meu delírio,
Aonde quer que vás, irá contigo
Meu corpo, mais que um corpo, irá um'alma,
Sabendo embora ser perdido intento
 
O de cingir-te forte de tal modo
Que, desde então se misturando as partes,
Resultaria o mais perfeito andrógino
Nunca citado em lendas e cimélios
 
Amor meu, punhal meu, fera miragem
Consubstanciada em vulto feminino,
Por que não me libertas do teu jugo,
Por que não me convertes em rochedo,
 
Por que não me eliminas do sistema
Dos humanos prostrados, miseráveis,
Por que preferes doer-me como chaga
E fazer dessa chaga meu prazer?


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

48ª SEMANA: DE 18 A 25/12: CANTO DE NATAL

 
CANTO DE NATAL
Manuel Bandeira

O nosso menino
 Nasceu em Belém.
 Nasceu tão-somente
 Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
 O nosso menino.
 Mas a mãe sabia
 Que ele era divino.

Vem para sofrer
 A morte na cruz,
 O nosso menino,
 Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
 O humano destino:
 Louvemos a glória
 De Jesus menino.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

47ª SEMANA: DE 11 A 18/12: TU QUE ME DESTE O TEU CUIDADO ...

 
TU QUE ME DESTE O TEU CUIDADO...
Manuel Bandeira
 
Tu que me deste o teu carinho
E que me deste o teu cuidado,
Acolhe ao peito, como o ninho
Acolhe ao pássaro cansado,
O meu desejo incontentado.
 
Há longos anos ele arqueja
Em aflitiva escuridão.
Sê compassiva e benfazeja.
Dá-lhe o melhor que ele deseja:
Teu grave e meigo coração.
 
Sê compassiva. Se algum dia
Te vier do pobre agravo e mágoa,
Atende à sua dor sombria:
Perdoa o mal que desvaria
E traz os olhos rasos de água.
 
Não te retires ofendida.
Pensa que nesse grito vem
O mal de toda a sua vida:
Ternura inquieta e malferida
Que, antes, não dei nunca a ninguém.
 
E foi melhor nunca ter dado:
Em te pungido algum espinho,
Cinge-a ao teu peito angustiado.
E sentirás o meu carinho.
E setirás o meu cuidado.


sábado, 8 de dezembro de 2012

46ª SEMANA: DE 04 A 11/12: SONETO DO MAIOR AMOR

 
SONETO DO MAIOR AMOR
Vinícius de Moraes
 
Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.
 
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.
 
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo
 
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

45ª SEMANA: DE 26/11 A 04/11: CANÇÃO AMIGA

 
CANÇÃO AMIGA
Carlos Drummond de Andrade
 
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
 
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
 
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
 
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
 
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

44ª SEMANA: DE 19 A 26/11: QUE SEJAS TU

 
QUE SEJAS TU
Pablo Neruda
 
Que sejas tu,
a continuidade da minha canção.
Que sejas tu,
a essência de meus versos,
a rima mais perfeita,
o verbo que conjugo.
 
Que sejas tu,
o término de minhas busca.
A escolhida.
A marcada.
Que sejas meu objetivo alcançado.
Que acima de tudo,
sejas o amor jurado.
 
Que diante do que desejo, sejas
Seja eu, teu raio de sol.
Seja eu, a tua euforia,
tua maior alegria,
O encanto de teus dias.
 
Que além de teus sonhos,
Seja eu, a tua realidade.
A essência, o corpo que te invade.
O abraço que te enlaça,
O beijo que nos sela.
O amor que nos espera.
Tu e Eu , EU e TU...
Que Assim Seja!


sábado, 10 de novembro de 2012

43ª SEMANA: DE 12 A 19/11: MINHA CABEÇA CORTADA

 
MINHA CABEÇA CORTADA
Paulo Leminski
 
Minha cabeça cortada
Joguei na tua janela
Noite de lua
Janela aberta
Bate na parede
Perdendo dentes
Cai na cama
Pesada de pensamentos
 
Talvez te assustes
Talvez a contemples contra a lua
Buscando a cor de meus olhos
 
Talvez a uses
Como despertador
Sobre o criado-mudo
 
Não quero assustar-te
Peço apenas um tratamento condigno
Para essa cabeça súbita
De minha parte

sábado, 3 de novembro de 2012

42ª SEMANA: DE 04 A 12/11: AMOR

 
AMOR
Álvares de Azevedo
 
Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
 
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábios beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!


41 SEMANA: DE 27/10 A 04/11: A BAILARINA

 
A BAILARINA
Cecília Meireles

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
 
Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.
 
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
 
Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
 
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
 
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
 
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

40ª SEMANA: DE 19 A 27/10: MUDAR

 
MUDAR
Luís Vaz de Camões
 
Mudam se os tempos, mudam se as vontades,
muda se o ser, muda se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
 
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
 
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
converte em choro o doce canto.
 
E, afora este mudar se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soia.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

39ª SEMANA: DE 11 A 19/10: A ESCOLA

 
A ESCOLA
Paulo Freire
 
Escola é ...
o lugar onde se faz amigos,
não se trata só de prédios, salas, quadros,
programas, horários, conceitos...

Escola é, sobretudo, gente,
gente que trabalha, que estuda,
que se alegra, se conhece, se estima.

O diretor é gente,
O coordenador é gente, o professor é gente,
o aluno é gente,
cada funcionário é gente.

E a escola será cada vez melhor
na medida que cada um
se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de "ilha cercada de água por todos os lados".
Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir
que não tem amizade a ninguém,
nada de ser como o tijolo que forma a parede,
indiferente, frio, só.
 
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
é também criar laços de amizade,
é criar ambiente de camaradagem,
é conviver, é se "amarrar nela"!
 
Ora, é lógico...
numa escola assim vai ser fácil
estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se 

e ser feliz.

Poesia do educador Paulo Freire, retirado da Revista Nova Escola (junho/julho 2003)

38ª SEMANA: DE 03 A 11/10: PADIN

 
PADIN
Leila Coelho Frota
 
De todos nós recebestes
Pernas, braços, pés, mãos
Cabeça, tronco, sexo, ouvido, seio
E, até patas de humildes bichos
Que em nossas vidas, conosco vão
Conosco dão o pão, a fome
E do pouco chão
Pequenos rastros de milagres
Acumulados no canto do muro

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

37ª SEMANA: DE 26/9 A 03/10: CANTEIROS

 
 
CANTEIROS
Cecília Meireles

Quando penso em você, fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos, em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
 
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Prá correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
 
Que eu ainda sou bem moço prá tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

36ª SEMANA: DE 18 A 26/09: BILHETE

 
 
BILHETE
Mário Quintana
 
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
...Se me queres, enfim,
...tem de ser bem devagarinho,
...Amada,
...que a vida é breve,
...e o amor mais breve ainda...


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

35ª SEMANA: DE 10 A 18/09: SONETO DE AMOR

 
SONETO DE AMOR
Pablo Neruda
 
Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,
 
sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,
 
sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,
 
e desde então sou porque tu é,
e desde então é, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

34º SEMANA: DE 03 A 10/09: TRADUZIR-SE

 
TRADUZIR-SE
Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
 
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
 
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
 
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
 
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
 
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
 
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


terça-feira, 28 de agosto de 2012

33ª SEMANA: DE 27/08 A 03/09: O AMOR QUANDO SE REVELA

 
O AMOR QUANDO SE REVELA
Fernando Pessoa
 
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
 
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
 
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
 
Mas se isto puder contar-lhe,
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

32ª SEMANA: DE 18 À 27/08: SE VOCÊ É ...

SE VOCÊ É ...
Madre Tereza de Calcutá

Se você é um vencedor,
 terá alguns falsos amigos
 e alguns amigos verdadeiros.
 Vença assim mesmo.

Se você é honesto e franco,
 as pessoas podem enganá-lo
 Seja honesto e franco assim mesmo.
 
O que você levou anos para construir
 Alguém pode destruir de uma hora para outra.
 Construa assim mesmo.

Se você tem paz e é feliz,
 As pessoas podem sentir inveja.
 Seja feliz assim mesmo.
 
Dê ao mundo o melhor de você,
 mas isso pode nunca ser o bastante.
 Dê o melhor de você assim mesmo.
 
Veja você que, no final de tudo
 Será você ... e Deus.
 
E não você ... e as pessoas!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

31ª SEMANA: DE 10 À 18/07: EMOÇÃO


EMOÇÃO
Martha Medeiros

emoção, que traidora você me saiu
me desmente assim na frente de todos
me faz tomar atitudes ridículas
que eu sempre detestei e neguei e nem sei

emoção, que maneira de me deixar só
agora estou sem caminho e sem solução
que jeito brusco de expulsar a razão
que sempre me fala, me guia, sei lá

emoção, que bela fera você se mostrou
invade assim sem saber, se atravessa,
domina
me agarra e sacode e balança e me enlaça
e eu já nem sei, sei lá, sou eu

30º SEMANA: DE 02 À 10/07: AS BORBOLETAS


AS BORBOLETAS
Vinícius de Moraes


Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então…
Oh, que escuridão!


sexta-feira, 27 de julho de 2012

29ª SEMANA: DE 25/07 À 02/08: DESENCANTO


DESENCANTO
Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento, de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue, volúpia ardente
Tristeza esparsa, remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!


28ª SEMANA: DE 17À 25/07: TROVAS DE LUCAS FARIAS

 

TROVAS DE LUCAS FARIAS
Lucas Farias – ex-aluno da escola Florestan Fernandes (Belém-PA)

 

Mangueira de minha terra
pássaro cantador
O teu canto tem ciranda
o teu canto tem amor

Mangueira da minha terra
Pássaro cantador
Vai voando vai cantando
Acordar o meu amor.

27ª SEMANA: DE 09 À 17/07: A OUTRA PORTA DO PRAZER


A OUTRA PORTA DO PRAZER
Carlos Drummond de Andrade

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.
Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.


terça-feira, 3 de julho de 2012

26ª semana: de 02 à 09/07: AQUELA SENHORA TEM UM PIANO


AQUELA SENHORA TEM UM PIANO
Alberto Caeiro

Aquela Senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as arvores fazem.

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a natureza.


quinta-feira, 28 de junho de 2012

25ª semana: de 24/06 à 02/07: MINH'ALMA É TRISTE


MINH’ALMA É TRISTE
Casimiro de Abreu

Minh'alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato;
Nem beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem doce canto o sabiá do mato!

E como a flor que solitária pende
Sem ter carícias no voar da brisa,
Minh'alma murcha, mas ninguém entende
Que a pobrezinha só de amor precisa!

Amei outrora com amor bem santo
Os negros olhos de gentil donzela,
Mas dessa fronte de sublime encanto
Outro tirou a virginal capela.

Oh! quantas vezes a prendi nos braços!
Que o diga e fale o laranjal florido!
Se mão de ferro espedaçou dois laços
Ambos choramos mas num só gemido!

Dizem que há gozos no viver d'amores,
Só eu não sei em que o prazer consiste!
- Eu vejo o mundo na estação das flores...
Tudo sorri - mas a minh'alma é triste!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

24ª SEMANA: DE 16 À 24/06: A MESA


A MESA
João Cabral de Melo Neto

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto, ainda leve, quente

e fresco como o pão.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

23ª SEMANA: DE 08 À 16 DE JUNHO: FANATISMO


FANATISMO
Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa... ”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim! ... ”

segunda-feira, 4 de junho de 2012

22ª SEMANA: DE 01 À 08/06: A LÁGRIMA


A LÁGRIMA
Jorge de Lima

Ao desgraçado, ao réu, ao pecador, que importa!
És um alívio presto, um conforto, um alento!
Quantas vezes oh! céus, a lágrima conforta
O que diz a Saudade e o que fala o Tormento!

Do desejo que nasce, à Paixão que está morta,
A lágrima completa o universal conceito...
Atentai no meu estro: ela convence e exorta
Qual se fora um gemido, um soluço, um lamento!

Quando a voz titubeia, agonizante, louca,
E a paixão quer falar e se constrange e cala,
É a lágrima que diz o que não diz a boca...

A lágrima, meu Deus! que não tem voz nem fala,
É tão boa! parece um confidente mudo
Que, assim mesmo, sem voz e sem falar, diz tudo!

sábado, 26 de maio de 2012

21ª SEMANA: DE 23 À 31/05: SONETO DE FIDELIDADE

SONETO DE FIDELIDADE
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

domingo, 20 de maio de 2012

20ª SEMANA: DE 15 À 23/05: TEMOR


TEMOR
Junqueira Freire

 

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
Não sinta o nosso peso.

 

Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
Ou morreremos juntos.

 

Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz, - nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.

 

Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto.
Somente pra os meus beijos.

 

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olha que a terra
Não sinta o nosso peso.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

19º SEMANA- DE 07 À 15/05: PARA SEMPRE

PARA SEMPRE
Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

18ª SEMANA: DE 30/04 À 07/05: A LAVADEIRA


A LAVADEIRA
Cora Coralina


Essa Mulher...
Tosca.Sentada. Alheada...
Braços cansados
Descansando nos joelhos...
olhar parado, vago,
perdida no seu mundo
de trouxas e espuma de sabão
- é a lavadeira.

Mãos rudes, deformadas.
Roupa molhada.
Dedos curtos.
Unhas enrugadas.
Córneas.
Unheiros doloridos
passaram, marcaram.
No anular, um círculo metálico
barato, memorial.
(...)

Viúva, naturalmente.
Tranqüila, exata, corajosa.

(...)

Madrugadeira.

(...)

Seu mundo se resume
na vasca, no gramado.
No arame e prendedores.
Na tina d’água.
De noite – o ferro de engomar.
 
Vai lavando. Vai levando.
Levantando doze filhos
Crescendo devagar,
enrodilhada no seu mundo pobre,
dentro de uma espumarada
branca de sabão.
 
(...)

trechos in Cora Coralina – Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais
Editora Global

segunda-feira, 23 de abril de 2012

17ª SEMANA: DE 22 À 30/04: PÁLIDA

PÁLIDA
Álvares de Azevedo

 Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

 Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

 Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

16ª SEMANA - DE 15 À 22/04: SE EU QUISESSE

SE EU QUISESSE
Martha Medeiros

se eu quisesse
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade

andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego

trocaria o nome
mandaria cartas
choraria às vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distribuiria beijos

arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro

faria tudo isso
se eu quisesse mesmo