segunda-feira, 17 de outubro de 2016

de 25 à 31/11: SÓ




Florbela Espanca

Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!...

As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...

Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela! ...

sábado, 19 de outubro de 2013

DE 19 A 25/10: A PORTA (homenagem ao centenário de Vinicius de Moraes)


A Porta
Vinicius de Moraes

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!
Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

domingo, 21 de julho de 2013

17ª SEMANA: 24 A 30/04: SAUDADE


Saudades
Florbela Espanca

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

sábado, 27 de abril de 2013

16ª SEMANA: DE 17 A 23/04: ROMANTISMO


ROMANTISMO
Cecília Meireles

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua, 
para pensar um belo pensamento 
e pousá-lo no vento! 

Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível - 
para se ver chorando, e gostar de chorar, 
e adormecer de lágrimas e luar! 

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas, 
partisse por nuvens, dormente e acordado, 
levitando apenas, pelo amor levado... 

Quem tivesse um amor, sem dúvida e sem mácula, 
sem antes nem depois: verdade e alegoria... 
Ah! quem tivesse... (Mas, quem teve? quem teria?)

domingo, 7 de abril de 2013

15ª SEMANA: DE 10 A 16/04: VIDA DE MÁRMORE


VIDA DE MÁRMORE
Murilo Mendes

A estátua muda a camisa na praça deserta.
Arcanjos violentos surgem do fundo dos minutos,
carregam tua vontade para o outro lado do mundo
Amor preguiça deserto revolução amor,
tudo passa tudo se reduz a eternidade de olhares,
tudo passa menos a memória da bem-amada.

Tudo se reduz a eternidade de contatos.
O amor passa menos a memória da bem-amada.
Meus pensamentos eternos ficaram à superfície do teu corpo.
Toda a realidade do mundo é provisória, o mundo é provisório.
Tudo se reduz a eternidade de preguiça e de olhares.
A estátua mudou de camisa e se acalma na praça deserta.

14ª SEMANA: DE 03 A 09/04: NÃO HÁ VAGAS


NÃO HÁ VAGAS
Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
   está fechado:
   "não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

segunda-feira, 1 de abril de 2013

13ª SEMANA DE 26/03 A 02/4: CHUVAS


CHUVAS
Alfredo Garcia

Com chuva grossa
não há quem possa.
- E a chuva fina?
- E chuva de menina!
- Mas, e o chuvisco?
- É menino arisco!
- E, se chove canivete?
- Te mete!

Com chuva grossa
não há quem possa.
- E quando vem a enxurrada?
- A rua fica alagada!
- E se chove de mansinho?
- É o céu fazendo carinho...
- E a chuva com trovão?
- É Deus passando um carão!

Com chuva grossa
Não há quem possa.